A retomada do uso de vouchers para corridas por aplicativo pela Prefeitura de São Luís, anunciada como resposta à paralisação do transporte coletivo, voltou a gerar polêmica e questionamentos jurídicos e financeiros. A principal crítica gira em torno da ausência de um novo processo formal de credenciamento que dê respaldo legal à medida adotada neste novo momento de greve.
De acordo com informações apuradas, o único chamamento público conhecido para esse tipo de serviço ocorreu ainda durante a primeira paralisação do sistema de ônibus. Nas greves seguintes, a gestão municipal optou por adotar um modelo emergencial, que resultou em gastos elevados.
Somente em novembro, foram desembolsados R$ 5.973.027,62 para custear viagens por aplicativo. Em dezembro, o valor chegou a R$ 2.741.989,05. Somados, os pagamentos ultrapassam R$ 8,7 milhões em apenas dois meses.
A falta de transparência sobre a base legal que sustenta essas despesas tem provocado reações na Câmara Municipal. Vereadores apontam que a prefeitura pode estar utilizando credenciamentos antigos para justificar pagamentos atuais, mesmo diante de um cenário completamente distinto, com nova paralisação e volume financeiro muito superior. Para parlamentares, a ausência de contratos atualizados fragiliza juridicamente a iniciativa e pode atrair questionamentos dos órgãos de controle.
Outro ponto que chama atenção é o impacto financeiro da política de vouchers quando comparado ao custo do transporte coletivo tradicional. Enquanto o subsídio pago às empresas de ônibus gira em torno de R$ 1,35 por passageiro, o custo médio de uma corrida por aplicativo utilizada como voucher chega a aproximadamente R$ 30. Na avaliação de críticos, o município acaba direcionando recursos elevados para um serviço individual, em detrimento de investimentos estruturais em um sistema que atende milhares de usuários simultaneamente.
Nos bastidores do Legislativo, a avaliação é de que a prefeitura tem evitado enfrentar o núcleo da crise, que envolve negociação trabalhista e reequilíbrio econômico do sistema de transporte. Relatos de vereadores indicam que, em reunião realizada nesta terça-feira (3) no Tribunal Regional do Trabalho do Maranhão (TRT-MA), o representante do Executivo municipal não tinha autorização para discutir reajuste salarial da categoria nem revisar subsídios ou a tarifa técnica, o que teria frustrado qualquer avanço nas negociações.
Parlamentares também veem na condução da crise um componente político. A crítica recorrente é de que o prefeito Eduardo Braide aposta em soluções emergenciais com forte apelo nas redes sociais, enquanto evita o desgaste de assumir compromissos estruturais com empresários e trabalhadores do setor. “A prefeitura prefere anunciar medidas paliativas do que resolver o problema de forma definitiva”, resumiu um vereador, sob condição de anonimato.
Com o sistema de ônibus ainda instável, despesas extraordinárias em crescimento e dúvidas sobre a legalidade dos pagamentos, a política de vouchers, que deveria ser temporária, passa a ser encarada como mais um fator de tensão entre Executivo, Legislativo e a população, que continua enfrentando incertezas para se deslocar pela capital maranhense.












